Escada Rolante e Elevador Panorâmico

por Dilvo Rodrigues

Um Barulho de algo batendo na calçada com alguma frequência. Alguém caminhava na minha frente tirando notas secas do chão.
Sinal verde, amarelo, vermelho. Parei na faixa de pedestre. Uma senhora também estava por ali.
-Eu posso ir? – ela gritou.
– A senhora precisa de ajuda para atravessar?
-Sim, preciso!
Reparei que ela era cega e precisava mesmo de ajuda. Naquele momentos me veio a imagem de um náufrago pedindo socorro em alto mar. Meu barco de pescador era o único por ali e tinha espaço para mais um.
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Parentes do Riso

por Dilvo Rodrigues

Outro dia meu avô apareceu em um dos meus sonhos. Eu não tenho muitas lembranças dele, então o sonho fez questão de se valer do cenário de uma foto, que eu já vi muitas vezes no álbum de fotografias da família. Na foto, estava sério, era o dia de batizado dos netos dele, eu e meu irmão mais novo. Mas, no sonho, ele estava rindo um sorriso desses bem maroto, dentro da foto, no mesmo batizado. O que não é de se espantar por que uma das poucas coisas que me lembro do Sr. José Rodrigues é que o sujeito era um piadista, engraçado e brincalhão. Mesmo não me recordando de nenhuma piada, coisa engraçada ou brincadeira dele, me lembro do tom e do jeito da risada daquele homem. Me lembro da maneira como ele caminhava, de quando ele raspava a botina suja de barro também, sempre rindo ou contando algo divertido. Algumas vezes, quando conto alguma coisa engraçada ou tentando fazer alguém rir, me pego matutando: “Será que ele riria dessa minha’piada’?
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Os Canelas Finas

por Dilvo Rodrigues

Na adolescência, tinha uma namoradinha bem bacana, que adorava minhas canelas de saracura. Adorava ainda mais quando eu usava boot, aquelas botinas de cano mais ou menos longo. Eu usava essas botinas com meias curtas e bermuda. Ela chegava toda apaixonada e dizia: “Ah, tá parecendo o Chaves.” O Chaves nunca foi um parâmetro fashion na minha vida. Eu adorava o seriado mexicano, assistia todo dia no SBT. Eu assistia o mesmo episódio dez vezes. Dez vezes eu gargalhava com a mesma intensidade do mesmo episódio. Eu nunca havia reparado nas canelas do Chaves até então. Descobri que eu e bolaños poderíamos ser gêmeos de canela. Eu não gostava, mas hoje até acho legal me sentir um pouco Chaves na vida. E, ele pode até esconder atras da calça jeans. Mas, Seu Madruga também tem perna de Tuiuiú.
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Ah, Meu Amor

por Dilvo Rodrigues

“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.” É rapaz, essas músicas do Milton Nascimento fazem a gente se sentir feito o trecho de uma poesia do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: “Eu não devia te dizer. Mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.” Eu já deveria saber que o amor não é sempre grande e claro como a lua e nem mesmo forte e embriagante como conhaque. Mas, também, não posso dizer que o amor seja o diabo.
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Os Raimundos Nonato e Lourenços da Vida

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por Dilvo Rodrigues

Todos os dias ele vai almoçar no mesmo lugar. A comida não é das melhores. Na verdade, para Lourenço, a comida é um lixo. O que leva esse negociador de quinquilharias ao boteco não é mesmo a comida, o motivo é outro. O Lourenço de “O Cheiro do Ralo”(2007), dirigido por Heitor Dhalia, não vai para comer, mas para olhar a bunda da garçonete. No caso dele, nem se poderia utilizar a expressão “comer com os olhos” e, muito menos, o “comer” chulo e sexual que se utiliza por aí, nas ruas. Lourenço quer poder olhar para a bunda da garçonete quando desejar. Não é o tipo de cara que concorda com a proposição psicanalista que diz que a grande tristeza na vida humana é que ver e comer são duas operações diferentes, como descreve Norman O. Brown no livro “Love’s Body”. “Eu não quero casar com essa bunda. Eu quero comprar ela pra mim”. Temos então, alguém que sabe perfeitamente o que quer e como quer possuir.
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