Escada Rolante e Elevador Panorâmico

por Dilvo Rodrigues

Um Barulho de algo batendo na calçada com alguma frequência. Alguém caminhava na minha frente tirando notas secas do chão.
Sinal verde, amarelo, vermelho. Parei na faixa de pedestre. Uma senhora também estava por ali.
-Eu posso ir? – ela gritou.
– A senhora precisa de ajuda para atravessar?
-Sim, preciso!
Reparei que ela era cega e precisava mesmo de ajuda. Naquele momentos me veio a imagem de um náufrago pedindo socorro em alto mar. Meu barco de pescador era o único por ali e tinha espaço para mais um.

– Segura minha mão. Calma que o sinal acabou de fechar pra gente! A Senhora esta indo para?
– Preciso ir na loja da “Oi” no Shopping.
Olhei a escadaria imensa do Shopping. Era também meu destino. Aquela escadaria mais parecia a de uma igreja. E eu ri pensando que era o preço a se pagar pelo pecado do consumo.
– A senhora consegue subir escada sozinha?
– Escada rolante? Não, tenho muito medo de escada rolante.
– Mas, tem uma escada “normal” ali. Vamos subir?
– Me ajuda?
– Vamo junto!

Continuei segurando mão da Dona e atravessei a faixa com ela.
-Ó! Cuidado, o primeiro degrau da escada já tá ta aqui.
E ela cutucou o degrau com a bengala.
– Nossa moço, escada rolante é muito perigoso. O Senhor já andou de escada rolante? Eu tenho medo!
– Eu já andei sim. Fica tranquila que não vou colocar a senhora numa escada rolante.
– Eu quero ir na loja da “Oi”. O senhor sabe onde fica.
– Não sei. Não sou daqui. Nunca entrei nesse shopping, mas a gente descobre.
– Acabou os degrau?
– Não, isso só foi um “descanso” vem mais degrau ai. Cansou?
– Não.

A escadaria ficou para trás. O próximo passo era descobrir onde ficava a bendita loja.
– O Sr. trabalha aqui? Trabalha, né!? Eu preciso levar essa senhora na loja da “Oi”. Onde fica?
– Fica no segundo piso.
– Segundo andar?
A Utilização da escada rolante me pareceu quase inevitável.
– Vamos ter de ir de escada rolante moço?, ela me perguntou.
Soltei a mão dela, precisei pensar por alguns segundos.
– Onde fica o elevador? – perguntei para o segurança
Peguei na mão da Senhora e fomos até o elevador.
– Vou chamar o elevador aqui, tá?. Já ta descendo. Como é o nome da senhora?
Soltei a mão.
– É Maria Fernanda. E o seu?
– O meu é Dilvo.
– Diferente! O senhor é estrangeiro?
– Não. É só mais um caso brasileiro de nome estranho mesmo. Chegou o elevador! – Peguei a mão dela e segurei.
Dentro do elevador.
– Esse elevador é daqueles que da pra ver lá fora?
– Não, não é panorâmico. Tem um espelho, que as pessoas podem ajeitar o cabelo, passar maquiagem, fazer careta…
– Ah sim. E na escada rolante tem espelho também?
– Tem. É difícil de explicar. Mas, geralmente a escada que desce e a escada que sobe acabam se cruzando. Daí, nesse cruzamento, na lateral de cada escada tem um espelho. As pessoas que descem olham no espelho da escada rolante que sobe e as pessoas que sobem usam o espelho da escada rolante que desce. E as pessoas ficam fazendo poses sensuais ou beijando o namorado ou namorada e olhando no espelho. Tem gente que também fica tirando foto no espelho da escada rolante. E tem espelho também na escada rolante que fica bem em cima das nossas cabeças, no piso de cima.

Isso tudo com mímica. Eu me achei um songo-mongo por que nem eu mesmo entendi minha mímica. E a Dona Maria Fernanda nem se deu conta que eu estava lá, feito um animador de chimpanzés. Ela só ficava de cabeça baixa e escutava. Quando eu falava, ela abaixava a cabeça.
– Eu imagino! Mas, acho que nunca vou poder andar de escada rolante. – Disse.
Eu fiquei curioso para saber como é a escada rolante nas fantasias dela. Mas, pensei que seria uma pergunta de uma certa insensibilidade.
– Bom, se a senhora quiser se aventurar um pouco eu posso tentar ajudar. Chegamos no andar, agora é tentar saber onde fica a loja.
Saindo do elevador.
-Eu já sou muito velha pra essas coisas moço. O Senhor não tem mão de velho. Mas, tem calo na mão.
– Isso é calo de barra.
– Barra?
– É que eu faço exercícios, academia, dai a mão acaba pegando uns calos. E eu tenho lá meus 29 anos. Vou perguntar a moça onde fica a loja.
Segundo a moça que cobra o estacionamento, o estabelecimento ficava no final do corredor. Andamos, andamos, andamos. Eu segurando na mão da Maria Fernanda, a Maria Fernanda segurando na minha mão como se fossemos mãe e filho fazendo compras no shopping, para uma data especial.
– Vinte nove anos! Tem muita coisa pra ver ainda nessa vida.
– É! Olha aí, chegamos!
“Olha ai”?, pensei comigo mesmo que essa tenha sido uma péssima escolha de palavras.
– Ah, que bom. – Disse dona Maria Fernanda.
– Mas, a senhora vai ter de esperar um pouco. Só tem uma pessoa atendendo e quatro clientes na fila de espera.
– Tá certo.
– Quer se sentar? Tem cadeira vazia aqui.
– Não,não.
– Maria Fernanda a senhora precisa de mais alguma ajuda?
– Pode deixar meu filho, depois eu peço pra outra pessoa me ajudar.
– Então fica com Deus e se cuida, tá?
– Tá bom, Dilvo. Deus lhe pague- Disse e beijou a minha mão.

Saí da loja, sentei na praça de alimentação e pedi um café. Não conhecia ninguém lá. Eu olhava tudo aquilo e achava tudo isso muito sem graça ali dentro. “Vinte nove anos! Tem muita coisa pra ver ainda nessa vida.”, pensava e duvidava. Não passou muito tempo e resolvi ir embora. Fui descendo as escadas rolantes, uma por uma. Bacana! Mas, como seria andar de elevador panorâmico? Nunca andei!

2 comentários sobre “Escada Rolante e Elevador Panorâmico

  1. Muito boa crônica Dilvo, mostra também como vc é uma pessoa gentil, humana e sensível. Gostei desta senhorinha, eu também já tive medo de escada rolante, rs e não gosto de elevador panorâmico, embora dê para ver belas paisagens…

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