As Flores do Bem

 

por Dilvo Rodrigues

Quando contaram a Zélia Glaucia do Monte a história de um paciente renal crônico que vinha à Governador Valadares constantemente para fazer hemodiálise e, que essa pessoa passava as noites dormindo debaixo de marquises com um parente, ela ficou bastante sensibilizada. O paciente tinha 12 anos de idade e estava acompanhado da mãe. Zélia imaginava a cena de uma criança na rua, passando necessidades de todos os tipos ao mesmo tempo em que lutava para sobreviver. Pensava no sofrimento na mãe do menino, de mãos atadas e vendo o filho sofrer daquela maneira. Na época, isso levou a estudante do curso de administração à ação. Nascia uma vontade; Abrigar pacientes renais crônicos e oncológicos durante o período de tratamento realizado fora de suas residências. Mas como?

Encontrei Zélia numa manhã agradável de quarta-feira, no Abrigo Esperança, instituição na qual ela é fundadora e atual presidente. Sentamos em cadeiras de vime, preenchidas por confortáveis almofadas, na área externa da casa, que é tomada por um belo e bem cuidado gramado, muitas flores, girassóis e uma fonte no formato de coração.  Nesse jardim também há uma placa grande com os dizeres: “Não diga para Deus que você tem um grande problema. Mas diga para o seu “problema” que você tem um grande Deus.”. Estava com uma xícara de chá de erva cidreira bem quente nas mãos. “Bom, vou contando a história e você vai tomando nota do que achar importante.” Quando o entrevistado fala assim, tudo costuma ser importante.

Na verdade, a história da criança de 12 anos Zélia nunca soube se era verdadeira, mas tinha grande chance de ser. Ainda na graduação, enquanto preparava o projeto de conclusão de curso, voltado para o gerenciamento e administração de uma empresa hospitalar, sediada dentro de um hospital, ela se deparou com muitas histórias semelhantes. Do lado de fora do hospital, avistava mulheres com um lenço na cabeça, debaixo do sol escaldante desta cidade do leste de Minas Gerais, ou mesmo, pacientes ou parentes deles que não tinham como se alimentar, já que o hospital não contava com lanchonete; pessoas que não tinham onde dormir ou com quem contar com o apoio durante um tratamento tão difícil.

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Um beija-flor pairava próximo as pétalas de uma flor. Uma colaboradora chegava de bicicleta e cumprimentava Zelia, que mudava a voz para um tom amável, quase de mãe. Tudo começou com uma casa de passagem para sete pessoas. “Não era suficiente.” Depois, ela me fez entender que o conceito certo seria, na verdade, o de uma “casa de permanência”. Até mesmo essa mulher, que tem a solidariedade como razão de vida, demorou algum tempo para entender que o importante era criar um ambiente onde as pessoas pudessem se sentir, de algum forma, pertencentes a uma família. Durante esse trajeto de evolução estrutural e pessoal, Zélia bateu na porta de muita gente pedindo doações, empurrou muitas macas e cadeiras de rodas entre hospital e o abrigo, ouviu muito não, se desfez de muitos de seus bens para financiar seu sonho de ajudar os outros, arrumou outros três empregos para financiar o sonho de ajudar as pessoas e tudo isso de novo. Até que um dia ela própria precisou ser ajudada ao ser diagnosticada com um câncer de mama.

Um senhor com uma bengala se aproxima e nos salda com um sorriso.

“O Senhor veio andando sozinho de lá de dentro?”, pergunta Zélia.

“Sim!”

“Uai. Mas, já tá bem demais então. O Senhor tá até mais bonito.”

O Chá de erva cidreira havia acabado. Ele sorriu, sorriu e sorriu. A filha dele também surge na porta sorrindo. Ela colabora com alguns serviços dentro do abrigo. Naquele momento, devia estar preparando o almoço.

“O senhor não quer sentar um pouco lá fora, ver os carros e as pessoas passando, distrair a mente?”

Ele balançou a cabeça afirmativamente. Depois saiu andando com a bengala, amparado pela filha. Na calçada foi fazer companhia aos outros, em silencio, vendo a movimentação da rua. Foi o que vi quando cheguei ao portão de entrada. Três ou quatro bancos, pintados de um verde claro, dispostos bem de frente para o movimento da rua. E senhores e senhoras lá, olhando aquela rua, como se estivessem esperando passar o carro que os levaria ao futuro por eles desejado. Um futuro bom, creio eu.

“Quando tive câncer foi quando fiquei mais vaidosa.”, conta Zélia, sem deixar de mencionar o bom humor e o pensamento positivo, capazes de despertar a admiração do médico que tratava dela. Isso foi em 2004, depois vieram complicações e mais três cirurgias. Nesse período, não desligou do Abrigo. Mas passou a gerencia para o irmão, Cledson, falecido em 2007, em um acidente automobilístico. O mesmo responsável pela a construção da fonte em formato de coração. Contou muito com a colaboração dos filhos, ainda que o mais novo deles não soubesse lidar com a situação. Nunca os negligenciou, mesmo com as responsabilidades no abrigo, mesmo com as responsabilidades no abrigo e o surgimento da doença.

“Dona Mariana a senhora não pode ficar tomando sol. A senhora é muito branquinha.”

A dona Mariana respondeu: “Tem um médico bem bonito trabalhando lá agora.”.

O telefone tocou, o recado chegou. Mas, Zélia pediu para que a pessoa retornasse a ligação meia hora depois.

Um detalhe foi que essa jovem senhora canalizou toda a repercussão da própria doença para salientar a importância do trabalho realizado no Abrigo Esperança. Se fosse convidada para uma palestra em uma universidade ou uma feira empresarial, o nome e o trabalho da instituição estariam lá também representados. Porém, 99,9% do sustento vem da comunidade. No começo, as despesas do Abrigo Esperança eram divididas meio a meio entre duas fundadoras. A obra é de solidariedade, mas o funcionamento tem de ser e é igual ao de uma empresa comum. Há gasto com pessoal, água e luz. Por isso, ela ainda conta com ajuda financeira e apoio dos seus próprios irmãos.

Um dos filhos da Zélia, que também presta serviço lá, vai saindo com um capacete pendurado no braço.

Ele me cumprimentou.

“Meu filho, outro dia tive um sonho relacionado com você e essa moto. Tome cuidado, ore para que nada aconteça.”

O Rapaz assentiu e saiu.

“Você quer conhecer o abrigo?”

“Sim, claro! Mas, eu preciso de uma foto sua.”

Tirei a foto com ela bem ao lado de um girassol, planta que segue a luz solar todos os dias, do nascente ao poente.

Para além da Crônica

Artesanatos produzidos pelos abrigados
Artesanatos produzidos pelos abrigados

O Abrigo Esperança conta hoje com 43 leitos. E tem gastos como o de uma empresa. As receitas, a maior parte delas, é proveniente de doações que a comunidade faz e, também, do próprio bolso da Zélia, de alguns de seus parentes e amigos. A Obra do Abrigo Esperança teve início em 2004. Ou seja, são mais de 10 anos ajudando pessoas a superarem a doença, a dor e, muitas vezes, até a solidão, falta de afeto, de carinho e de amor.

Segundo a Zélia, para atender toda a demanda de pacientes que precisam de um lugar para ficar, seria preciso elevar o número de leitos em pelo menos 30%.  Há ainda a necessidade e a vontade de melhorar a estrutura de alguns espaços como por exemplo o ambulatório, sala de isolamento e sala de reuniões. A colaboração voluntária seja ela afetiva (algumas pessoas lá agradeceriam se tivessem alguém ao menos para conversar) ou profissional é muito bem vinda. Doações são muito bem vindas.

Entre outras coisas, eles precisam de:

– Um profissional voluntário que trabalhe com criação de arte e edição de imagem para o site do abrigo.

– Um profissional voluntário que tenha disposição de atualizar o site do abrigo.

– Uma pessoa que tenha interesse de divulgar o trabalho e o nome do Abrigo Esperança.

As doações em dinheiro podem ser feitas através da conta 14.164-X, Agência 2296-9. Banco do Brasil.

Se você tem interesse de conhecer o trabalho ou mesmo ser um colaborador o endereço de lá é: Rua Nízio Peçanha Barcelos, 1384. Bairro Vila Isa. O Telefone de contato é o 33 3272 2593.

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