O DNA da Loucura

por Dilvo Rodrigues

A rotina começa com o primeiro remédio para evitar a loucura e um outro, que evita as loucuras advindas da ingestão de álcool. Na verdade, esse segundo remédio tenta evitar a primeira dose, lema esse de todo alcoólatra assumido e aposentado de suas funções “boêmicas”. “Este medicamento é indicado para o tratamento e prevenção da recaída ou recorrência da depressão”. Sim, sou eu! O bom dos remédios que a gente toma é que eles sempre tratam de deixar a gente incluso. Pego meu copo de leite, meu pão com requeijão cremoso, e as duas pílulas. “Primeira dose de loucura do dia evitada!”

Alguns minutos depois, o coração da uma acelerada aqui, um sono chega acolá, o chefe chama atenção da sonolência no trabalho, uma espreguiçada, levanto e saio correndo pedir ajuda para os efeitos da cafeína. Às vezes eu penso que é melhor do que chegar louco no trabalho, com a gravata na cabeça, paquerando a colega gata do administrativo e mandando “saporra” toda to hell. Nesse ponto, admiro minha sanidade mental provida por doses leves dos benéficos avanços da medicina. Um pouco de integridade não faz mal a ninguém, mesmo por que já tomei muito capote de bicicleta na vida tentando curar a depressão caindo na vida bandida. “Muié” da vida, cerveja por conta, rock n’ roll até de manhã. Mas não adianta. Nos dias seguintes, a ressaca e a depressão são bem piores. E o risco de quase perder a orelha numa ralada na ciclovia eu não quero correr mais.

A sensação mais esquisita é ir ao médico de malucos. Todo mundo fica quietinho, comportado, esperando a vez de contar as “doidices” para o psiquiatra. Eu entro lá, fico sentado e pensando: “Poxa, iria ser bacana ter uma festa da pesada com esse povo. Bipolar pegando esquizofrênico, depois o bipolar iria querer pegar o depressivo e depois o esquizofrênico de novo. O sonâmbulo cuidaria do som, já que a música não pode parar. E a moça com transtorno de personalidade múltipla, recatada no início da festa e promíscua no fim, subindo na mesa e dançando (algumas doses de álcool já provocaram o mesmo efeito em pessoas “normais”). Cada uma dava uma chapada no remédio do outro. Confete voando e rojão estourando! Uma maravilha!”. Mas não, fica todo mundo lá, sofrendo. Aquela coisa triste! Bom, talvez meus remédios não estejam fazendo o efeito esperado. Ou seja, continuo doido varrido da pedra lascada.

Uma coisa boa que aprendi em todos esses anos convivendo com episódios de insanidade mental recorrentes é que você nunca deve tomar remédios ansiolíticos ou calmantes antes de ter encontros amorosos. Se tomar e misturar com álcool, nem mesmo um azul da cor mais quente vai te ajudar. Uma coisa que eu notei é que tudo o que uma pessoa tem de sentimento “ruim” é enquadrado no rol das loucuras mais terríveis. Então, quando alguém enfrenta altos e baixos na vida, isso é chamado de “Distúrbio Bipolar” , se estiver com saudades de casa, sua doideira é conhecida como “Desordem de Separação e Ansiedade”. Não adianta, meu amigo e minha amiga, todo mundo tem problema nos parafusos.

Meu dia sempre termina com um tal de Divalproato de sódio. É uma droga muito da boa, indicada para o tratamento de episódios de mania associados com desordens bipolares, segundo a bula. Já foi testado em ratos, camundongos, cachorros e gatos. A pílula é do tamanho de uma jujuba. Ah, jujubas! Época boa, de comprar uma pacote delas, recheadas de açúcar. A gente dava trabalho o resto do dia, pirado na sacarose, era energia o dia inteiro. Pessoas bipolares são assim, as ideias fogem. Elas tem pobreza de julgamento, como diz a santa bula. Fazer o quê!? O jeito é tomar a maldita com um outro copo de leite, um pão com requeijão cremoso, vou pra cama, fecho os olhos e durmo. Mentira deslavada! Tenho insônia e fico pensando que quando eu for velho vão me internar em um asilo. E eu não quero isso de jeito nenhum. Ninguém quer! Quero mesmo é uma camisa de força xadrez e uma cadeira cativa no hospício mais próximo.

4 comentários sobre “O DNA da Loucura

  1. Parabéns Dilvo Rodrigues. És um exímio cronista. Sintetizar alguns elementos como é possível perceber em seus textos, não é tarefa fácil, ainda mais quando se fala/escreve de si mesmo; meus singelos cumprimentos.

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  2. Dilvo, sua excelente crônica me fez lembrar uma outra escrita por Luiz Fernando Veríssimo, em q ele estava na sala de espera do psicólogo, e ficou imaginando coisas sobre os outros pacientes. Na realidade não eram pacientes, era a mãe do psicólogo, um vendedor de remédios e outros e quando ele contou pro psicólogo o q imaginou, o psicólogo disse quem eram as pessoas e falou q ele não receberia alta tão cedo, rs. Dilvo Rodrigues, me impressiona sua lucidez, inteligência e humildade em assumir problemas desta natureza. Eu ri por causa do seu ótimo senso de humor e me emocionei ao saber como é difícil conviver com este drama.

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